Para a próxima

FIN DE VERANO A 8

Episódio 6 — “Para a Próxima”

Dias 31 de agosto e 1 de setembro

Último episódio da temporada.

Há viagens que acabam quando se apanha o avião de regresso.

E há outras que começam a acabar um dia antes, quando fazemos conscientemente cada coisa pela última vez.

A última corrida.

A última praia.

O último mergulho.

O último almoço sem olhar para o relógio.

O último jantar.

O último “só quero entrar naquela loja”.

E o último “amanhã corremos?”.


COLD OPEN

INT. QUARTO DE RUI E ANA — 07H18

O despertador toca.

Rui abre os olhos.

Ana não.

Rui desliga-o.

Fica sentado na cama durante alguns segundos.

Claramente a negociar consigo próprio.

Ana, de olhos fechados:

ANA
Não.

Rui olha para ela.

RUI
Não o quê?

ANA
Não vais correr outra vez.

RUI
Vou.

ANA
Hoje é o último dia.

RUI
Precisamente.

Ana abre um olho.

ANA
Essa palavra não significa o que tu achas que significa.

Rui começa a vestir a roupa de corrida.

ANA
Quantos quilómetros?

RUI
Não sei.

Agora Ana abre os dois olhos.

ANA
Como não sabes?

RUI
Vamos explorar.

Ana volta a fechar os olhos.

ANA
Tu e o André juntos parecem dois labradores quando alguém abre a porta de casa.

Rui:

RUI
Obrigado.

ANA
Não era um elogio.


CENA 1 — A PRIORIDADE DO ANDRÉ

INT. QUARTO DE ANDRÉ E ANDREIA — 07H22

André já está equipado.

Andreia abre os olhos.

Vê-o.

Já nem se surpreende.

ANDREIA
Vais?

ANDRÉ
Vou.

ANDREIA
Outra vez?

ANDRÉ
Última corrida de Ibiza.

Andreia:

ANDREIA
E depois?

André responde sem hesitar.

ANDRÉ
Omelete.

Andreia fecha os olhos.

ANDREIA
Ao menos tens prioridades.


CENA 2 — ÚLTIMA CORRIDA

EXT. SANTA EULÀRIA — 07H35

Rui e André começam a correr no paredão de Santa Eulària.

Pouca gente.

Mar calmo.

Luz da manhã.

Uma daquelas horas em que Ibiza parece ser uma ilha completamente diferente daquela que existe às duas da manhã.

ANDRÉ
Hoje sem corta-mato.

Rui:

RUI
Concordo.

André:

ANDRÉ
Disseste isso ontem.

Rui:

RUI
Hoje temos experiência acumulada.

André olha para ele.

ANDRÉ
Foi exatamente isso que me preocupou.


CENA 3 — A ENCOSTA

Deixam o paredão.

O caminho começa a subir pela zona de montanha junto ao mar.

Casarões enormes ocupam a encosta.

Piscinas.

Muros de pedra.

Terraços voltados para o Mediterrâneo.

André olha para uma das casas.

ANDRÉ
Isto não é mau.

Rui:

RUI
Não.

ANDRÉ
Quanto custará?

Rui:

RUI
Não quero saber.

André:

ANDRÉ
Porquê?

RUI
Porque quero continuar a gostar.


A inclinação aumenta.

E a humidade começa a fazer estragos.

Os dois suam de forma absurda.

Rui passa a mão pela testa.

A água do suor escorre pelas sobrancelhas diretamente para os olhos.

RUI
Isto não é normal.

André também está completamente molhado.

ANDRÉ
Está uma humidade brutal.

Rui limpa novamente os olhos.

RUI
Estou a suar pelos olhos.

André:

ANDRÉ
Isso chama-se chorar.

Rui:

RUI
Não estou emocionado.

André:

ANDRÉ
Última corrida em Ibiza…

Rui olha para ele.

RUI
Cala-te.


CENA 4 — A PRAIA IMPOSSÍVEL

Chegam ao extremo da encosta.

Lá em baixo surge uma pequena enseada.

Água cristalina.

No fundo, uma pequena praia.

Isolada.

Perfeita.

Os dois param.

ANDRÉ
Olha aquilo.

Rui aproxima-se.

RUI
Espetacular.

André olha em redor.

ANDRÉ
Como se chega lá?

Rui procura um trilho.

Nada.

RUI
Acho que só de barco.

André:

ANDRÉ
Ainda bem.

Rui olha.

RUI
Porquê?

ANDRÉ
Porque se tu descobrisses um caminho nós íamos descer.

Rui sorri.

RUI
Provavelmente.


Ficam alguns segundos em silêncio.

Mar em frente.

Último dia.

Última corrida.

André:

ANDRÉ
Foi uma boa semana.

Rui:

RUI
Ainda não acabou.

André:

ANDRÉ
Eu sei.

Pausa.

ANDRÉ
Mas foi.

Rui olha para ele.

Acena.

Depois quebra o momento:

RUI
Vamos. Quero pequeno-almoço.

André:

ANDRÉ
Omelete.


CENA 5 — A OMELETE

INT. HOTEL — 09H20

Os seis estão ao pequeno-almoço.

André regressa à mesa com um belo prato.

OMELETE.

Andreia olha.

ANDREIA
Claro.

André:

ANDRÉ
O quê?

ANDREIA
Nada.

Rui chega ainda completamente transpirado.

Ana observa-o.

ANA
Credo.

Rui:

RUI
Humidade.

ANA
Pareces ter tomado banho vestido.

Rui:

RUI
Quase.


Ricardo olha para o prato de André.

RICARDO
Tu comes omelete todos os dias?

André:

ANDRÉ
Quando há.

RICARDO
Não te fartas?

André fica genuinamente surpreendido.

ANDRÉ
De omelete?

Silêncio.

Há uma pausa onde normalmente surgiria uma frase de Sérgio.

Os seis percebem.

Ana:

ANA
Aqui fazia falta o Sérgio.

Dora sorri.

DORA
Fazia.


CENA 6 — ANA A EXPLORADORA

Ana pega no telemóvel.

ANA
Tenho o plano.

Ricardo:

RICARDO
Tu ou a tua amiga?

Ana:

ANA
Ana a Exploradora.

Ricardo:

RICARDO
A inteligência artificial ainda está de férias connosco?

ANA
Claro.

Rui:

RUI
Agentes não tiram férias.

Ana olha para ele.

ANA
Ao contrário de algumas pessoas.

Rui fica calado.


Ana continua.

ANA
Cala Sol d’en Serra.

Andreia:

ANDREIA
É boa?

Ana:

ANA
Não faço ideia.

Dora:

DORA
É grande?

ANA
Também não sei.

Ricardo:

RICARDO
Tem gente?

Ana olha para ele.

ANA
É Ibiza.

Ricardo:

RICARDO
Portanto, sim.


CENA 7 — CALA SOL D’EN SERRA

EXT. CALA SOL D’EN SERRA — FINAL DA MANHÃ

Descem até à praia.

E aquilo que não trazia grandes expectativas surpreende imediatamente.

Uma pequena baía.

Falésias.

Água límpida.

Uma praia pequena e tranquila.

Ana abre os braços.

ANA
Uau.

Dora:

DORA
Muito bonita.

Rui:

RUI
Boa descoberta.

Ana levanta o telemóvel.

ANA
Ana a Exploradora.

Rui:

RUI
Retiro parte das críticas.

Ana:

ANA
Parte?

Rui:

RUI
Não exageremos.


CENA 8 — A PAISAGEM HUMANA

Instalam-se.

E, como já aprenderam ao longo da semana, Ibiza oferece sempre dois tipos de paisagem.

A natural.

E a humana.

Um rapaz passa muito perto do grupo.

Claramente homossexual.

Usa uma minúscula cueca de banho fio dental.

Silêncio absoluto.

Os seis acompanham-no discretamente com os olhos.

Ou julgam fazê-lo discretamente.

Ricardo:

RICARDO
Bem.

Dora:

DORA
Ricardo.

Ricardo:

RICARDO
Eu só disse “bem”.

André volta a olhar.

ANDRÉ
Será confortável?

Andreia:

ANDREIA
Queres experimentar?

André:

ANDRÉ
Não.

Andreia:

ANDREIA
Então não investigues.


Ana percebe que todos continuam fascinados.

Entra imediatamente no seu habitual modo protetor.

ANA
Oh, deixem o rapaz em paz!

Ricardo:

RICARDO
Ninguém está a fazer nada.

Ana olha novamente.

Pensa por dois segundos.

E encontra a explicação que, para ela, resolve imediatamente a situação.

ANA
Ele está de certeza em transição!

Silêncio.

Todos olham para Ana.

Rui:

RUI
Como é que chegaste a essa conclusão?

Ana:

ANA
Não sei.

Pausa.

ANA
Mas deixem-no estar!

Andreia começa a rir.

Dora:

DORA
Ana, uma coisa não tem necessariamente nada a ver com a outra.

Ana:

ANA
Está bem. Eu não sei.

Volta a olhar para o rapaz.

ANA
Mas ele está feliz. É o que interessa.

Ricardo:

RICARDO
Isso concordo.

Rui:

RUI
Finalmente uma conclusão baseada nos dados disponíveis.

Ana:

ANA
Rui…

Rui:

RUI
Está bem.


CENA 9 — LIBERDADE

Há bastante topless.

Um casal de mulheres beija-se dentro de água.

Ninguém parece especialmente preocupado com ninguém.

Dora observa.

DORA
Há uma coisa boa aqui.

Rui:

RUI
O quê?

Dora:

DORA
As pessoas vivem.

Pausa.

DORA
Não estão sempre preocupadas com quem está a olhar.

Ricardo:

RICARDO
Nós estamos.

Dora:

DORA
Vocês estão.

Ricardo:

RICARDO
Investigação sociológica.

Ana:

ANA
Claro.


CENA 10 — REIKI, MEDITAÇÃO OU QUALQUER COISA

Mais à frente há uma jovem com HEADPHONES.

Olhos fechados.

Começa a fazer movimentos lentos.

Braços.

Corpo.

Respiração.

Algo entre dança, ritual e meditação.

Rui observa.

Muito concentrado.

Ana repara.

ANA
O que estás a fazer?

Rui:

RUI
Estou a tentar perceber.

Dora também olha.

É uma área que conhece melhor.

DORA
Aquilo é diferente.

Rui:

RUI
O quê?

Dora murmura:

DORA
Deve ser Reiki ou meditação guiada.

Rui continua a observar.

RUI
Mas qual é o objetivo?

Dora olha para ele.

DORA
Não tem necessariamente de ter objetivo.

Rui fica visivelmente confuso.

RUI
Como assim?

Ana desata a rir.

ANA
Rui, encontraste o teu maior pesadelo.

Rui:

RUI
O quê?

ANA
Uma atividade sem objetivo.

Rui continua a observar a jovem.

RUI
Agora ela mudou o padrão.

Dora:

DORA
Não há padrão.

Isso deixa Rui ainda mais intrigado.

Ana:

ANA
Deixa a rapariga em paz.


CENA 11 — BANHO

Entram no mar.

Água quente.

Os seis juntos.

Ana:

ANA
Isto devia ser obrigatório.

Ricardo:

RICARDO
O quê?

Ana:

ANA
Uma semana destas por ano.

Dora:

DORA
Concordo.

Andreia:

ANDREIA
Eu também.

André:

ANDRÉ
Com corridas.

Todos:

TODOS
NÃO!


CENA 12 — AMANTE

EXT. AMANTE IBIZA — HORA DO ALMOÇO

Sobem pela encosta até ao restaurante.

Quando chegam ao terraço, param.

A vista é espetacular.

Mar.

Falésias.

A pequena baía lá em baixo.

Ana:

ANA
Ok.

Rui:

RUI
Isto está noutro nível.

Ana:

ANA
Literalmente.

Rui olha para ela.

RUI
Muito bom.


Lá em baixo, na pequena praia de pedras, alguns nudistas relaxam.

Ricardo repara.

RICARDO
Há vários níveis mesmo.

Dora:

DORA
Almoço, Ricardo.


CENA 13 — A MESA REDONDA

Sentam-se numa mesa redonda.

Vista sobre o mar.

Vinho.

Comida.

Sol.

Um daqueles almoços onde ninguém parece ter pressa.

Rui olha para a mesa.

RUI
Gosto destas mesas.

Ana:

ANA
Porquê?

RUI
Toda a gente fala com toda a gente.

Ricardo:

RICARDO
E toda a gente ouve toda a gente.

Dora:

DORA
Isso tanto pode ser bom como mau.


CENA 14 — À AMIZADE

Copos servidos.

Rui levanta o seu.

RUI
À amizade.

Todos levantam.

TODOS
À amizade.

Bebem.

Ricardo levanta novamente o copo.

RICARDO
A nós.

Os homens levantam.

RICARDO
A elas.

As mulheres levantam.

Ricardo sorri.

RICARDO
E a nós dentro delas.

Silêncio.

Ana começa a rir.

Andreia:

ANDREIA
Romântico.

Dora:

DORA
Muito bonito, Ricardo.

Ricardo:

RICARDO
Foi sentido.

Rui:

RUI
Sobretudo a última parte.

Brindam.


CENA 15 — OS AMIGOS QUE FALTAM

Mais tarde.

Outro brinde.

DORA
E aos que não estão.

Ana:

ANA
Ao Sérgio e à Catarina.

Andreia:

ANDREIA
E ao Toni e à Ofélia.

Ricardo levanta o copo.

RICARDO
Que estas sejam as balas que atravessam os nossos corações!

Os outros repetem a frase.

Copos no ar.

É absurdo.

E precisamente por isso faz sentido entre eles.


CENA 16 — CASAIS

A conversa muda.

Dora:

DORA
Sabem uma das coisas que mais aparece em consulta?

Ricardo:

RICARDO
Pessoas?

Dora olha para ele.

DORA
Muito engraçado.


Dora continua.

DORA
Casais que deixaram de ser casal.

Ana:

ANA
Como assim?

DORA
Passaram a ser pais. Profissionais. Gestores da casa. Motoristas dos filhos.

Pausa.

DORA
E esqueceram-se da relação.

Andreia acena.

ANDREIA
A rotina come tudo.

Rui:

RUI
Sobretudo quando só se fala de logística.

Andreia:

ANDREIA
“Levas tu?”
“Compraste?”
“Quem vai buscar?”
“Pagaste?”

André:

ANDRÉ
É muito sexy.

Todos riem.


CENA 17 — SEXO

Dora:

DORA
Depois há o sexo.

Ricardo:

RICARDO
Finalmente.

Dora olha.

DORA
Queres assumir a consulta?

Ricardo:

RICARDO
Não. Continua.


Dora:

DORA
Há casais que continuam a gostar genuinamente um do outro…

Pausa.

DORA
…mas deixaram de se procurar.

Ana fica mais séria.

ANA
Isso é triste.

Dora:

DORA
É.

Andreia:

ANDREIA
E às vezes nem percebem quando aconteceu.

Rui:

RUI
Porque não acontece num dia.

Dora:

DORA
Exatamente.


CENA 18 — CONFIANÇA E TRAIÇÃO

Rui:

RUI
Para mim há uma coisa pior do que a rotina.

Dora:

DORA
O quê?

RUI
Perder a confiança.

Ricardo:

RICARDO
Aí acabou.

Dora:

DORA
Nem sempre.

Ricardo:

RICARDO
Para mim acabou.

Dora:

DORA
Porque tu vês tudo em absolutos.

Ricardo:

RICARDO
Eu não vejo nada em absolutos.

Todos ficam a olhar para ele.

Ricardo pensa.

RICARDO
Quase nada.


Falam de traição.

Dos limites de cada casal.

Do que se perdoa.

Do que não se perdoa.

De como a confiança leva anos a construir e segundos a destruir.

Ana:

ANA
Às vezes nem sabemos quais são as regras até alguém as quebrar.

Dora olha para ela.

DORA
Essa foi boa.

Ana:

ANA
Também tenho profundidade.

Rui:

RUI
Está de férias. Aparece.

Ana dá-lhe uma cotovelada.


CENA 19 — A AMIZADE

André recosta-se.

Olha para os outros.

ANDRÉ
Há uma coisa boa em sermos amigos há muito tempo.

Ana:

ANA
Qual?

ANDRÉ
Já ninguém consegue vender uma versão melhorada de si próprio.

Ricardo:

RICARDO
Infelizmente.

Dora:

DORA
É precisamente isso que é bom.

Rui:

RUI
Conhecemos os defeitos todos.

Andreia:

ANDREIA
E continuamos aqui.

Pausa.

Ninguém precisa de acrescentar nada.

Voltam a brindar.


CENA 20 — OS “PORTUGUESES” DO USHUAÏA

Rui olha para outra mesa.

RUI
Olhem.

Ana segue o olhar.

Reconhecem uma família com quem se tinham cruzado no Ushuaïa.

Pais.

Filhos.

Namorado da filha.

Ana:

ANA
Os portugueses.

Rui:

RUI
Acho que sim.

Mais tarde cruzam algumas palavras.

Bastam poucos segundos.

Sotaque brasileiro.

Quando regressam à mesa:

ANA
Brasileiros.

Rui:

RUI
Completamente.

Ricardo:

RICARDO
Falhámos a análise.

Ana olha.

ANA
Tu também?

Ricardo:

RICARDO
Eu nunca disse que eram portugueses.

Dora:

DORA
Pensaste.

Ricardo:

RICARDO
Continuamos sem ter crime de pensamento.


CENA 21 — OBSERVAÇÃO DE ESPÉCIES

Um casal japonês muito bem vestido passa perto.

Impecável.

Mesmo para um almoço numa falésia sobre o Mediterrâneo.

Ana observa.

ANA
Como é que há pessoas que conseguem estar elegantes com este calor?

Andreia:

ANDREIA
Eu já derreti há duas horas.


Na mesa atrás há um casal gay.

Lá em baixo, nudistas.

Mais longe, famílias.

Gente nova.

Gente mais velha.

Pessoas de toda a parte.

Dora olha em redor.

DORA
Gosto mesmo disto.

Ricardo:

RICARDO
Do quê?

Dora:

DORA
Ninguém é especialmente estranho porque toda a gente é diferente.

Rui:

RUI
Essa devia ser a definição de Ibiza.


CENA 22 — CAFÉ E CHUPITO

Depois do almoço descem para o balcão inferior.

Ambiente mais descontraído.

Mais perto do mar.

Cafés.

E depois…

CHUPITOS.

Ana olha para o relógio.

ANA
Isto ainda é almoço?

Rui:

RUI
Claro.

Ana:

ANA
São quatro da tarde.

Rui:

RUI
Almoço prolongado.


Copos pequenos.

Brinde.

RUI
Último dia.

Andreia:

ANDREIA
Não digas isso.

Rui:

RUI
Está bem.

Pausa.

RUI
Penúltimo brinde.

Andreia:

ANDREIA
Pior.

Bebem.


CENA 23 — CALA LLONGA

EXT. CALA LLONGA — FINAL DA TARDE

Ainda há tempo para uma última praia.

Desta vez:

Cala Llonga.

Uma grande enseada protegida.

Água cristalina.

Quente.

Depois de vários dias em Ibiza, aquela temperatura do Mediterrâneo já começa perigosamente a parecer normal.

Entram os seis.

Ana:

ANA
Último mergulho.

Dora:

DORA
Não digas.

Ana percebe.

ANA
Agora fui eu.


Ficam em grupo dentro de água.

Como aconteceu tantas vezes durante a viagem, conversam muito mais do que nadam.

Rui olha para a praia.

RUI
Transformámos o Mediterrâneo numa sala de estar.

Andreia:

ANDREIA
É melhor.

André:

ANDRÉ
Há mais espaço.

Ricardo aponta para as toalhas.

RICARDO
Ali somos refugiados.

Aponta para o mar.

RICARDO
Aqui somos proprietários.


CENA 24 — O ÚLTIMO CATÁLOGO DE IBIZA

A praia oferece mais uma vez a habitual variedade humana.

Peitos claramente aumentados.

Lábios preenchidos.

Bochechas com botox.

Corpos trabalhados.

Outros nem por isso.

Ricardo observa.

Dora percebe.

DORA
Ricardo.

Ricardo:

RICARDO
Eu não disse nada.

Dora:

DORA
Ainda.

Ricardo:

RICARDO
Só estava a pensar que deve haver aqui um cirurgião plástico a fazer muito dinheiro.

Ana:

ANA
Deixem as pessoas ser como querem.

Rui:

RUI
Desde que não nos obriguem a ser iguais.

Ana:

ANA
Exatamente.

Dora olha para os dois.

DORA
Olha.

Rui:

RUI
O quê?

DORA
Uma conclusão sem discussão.

Ricardo:

RICARDO
Eu discordo.

Todos olham.

Ricardo sorri.

RICARDO
Era só para não estragar a dinâmica.


CENA 25 — AGORA SIM, O ÚLTIMO MERGULHO

Começam a sair.

Ana fica mais alguns segundos.

Dora também.

Andreia junta-se.

As três olham para o mar.

Ana:

ANA
Agora sim.

Dora:

DORA
O quê?

Ana:

ANA
Último mergulho.

Dora sorri.

DORA
Agora podes dizer.


Mais atrás, Rui e André continuam dentro de água.

André olha para o horizonte.

ANDRÉ
Amanhã a esta hora…

Rui:

RUI
Lisboa.

André:

ANDRÉ
E água fria.

Rui:

RUI
Não estragues o momento.

Saem.


CENA 26 — OPERAÇÃO EIVISSA

INT. HOTEL — FINAL DA TARDE

Banhos.

Mudança de roupa.

Secadores.

Perfumes.

Última noite.

Ana está sentada.

Cansada.

ANA
Estou morta.

Rui:

RUI
Muito?

ANA
Muito.

Rui:

RUI
Ficamos?

Ana olha para ele como se tivesse dito um disparate.

ANA
Nem pensar.

Levanta-se.

ANA
É a última noite.


CENA 27 — EIVISSA

EXT. DALT VILA — NOITE

Cidade de Ibiza.

Luzes.

Muralhas.

Ruas estreitas.

Pedra.

Esplanadas.

Movimento.

Lojas abertas.

Ana recupera imediatamente parte da energia.

Rui percebe.

RUI
Há cinco minutos não conseguias andar.

Ana:

ANA
Foi antes das lojas.


CENA 28 — CEVITXEF

EXT. TERRAÇO — NOITE

Sentam-se num terraço dentro da zona histórica.

Ambiente acolhedor.

Sangria.

Ana olha para o jarro.

ANA
Isto vai correr mal.

Rui:

RUI
Porquê?

Ana:

ANA
Sangria na última noite.

Ricardo:

RICARDO
Tem fruta.

Ana olha.

RICARDO
É praticamente pequeno-almoço.


CENA 29 — CEVICHE

Chegam vários ceviches.

Provam.

Silêncio de aprovação.

Dora:

DORA
Muito bom.

Andreia:

ANDREIA
Muito.

Ricardo começa a analisar.

Rui percebe.

RUI
Não.

Ricardo:

RICARDO
Eu só ia—

Todos:

TODOS
NÃO!


CENA 30 — O SOLOMILLO

Chega o bife de solomillo.

Provam.

André olha para Rui.

Rui olha para André.

ANDRÉ
Muito bom.

RUI
Muito.

Ricardo prova.

RICARDO
Excelente.

Ana:

ANA
Finalmente uma mesa sem teorias.


Acabam a carne.

O empregado passa.

André segue-o com os olhos.

Rui percebe.

RUI
Estás a pensar o mesmo que eu?

André:

ANDRÉ
Sim.

Rui chama.

RUI
Outra dose.

Ana fica incrédula.

ANA
Outra?!

Rui:

RUI
Último jantar.

Ana:

ANA
Esse argumento serve para tudo.

Rui:

RUI
Precisamente.


CENA 31 — A REPETIÇÃO

Chega mais bife.

Andreia olha para André.

ANDREIA
Ontem era o chuletón.

André:

ANDRÉ
Isto é diferente.

Andreia:

ANDREIA
Como?

André pensa seriamente.

ANDRÉ
Ontem era um objetivo.

Pausa.

ANDRÉ
Hoje é reconhecimento de qualidade.

Rui:

RUI
Exatamente.

Ana:

ANA
Homens conseguem criar argumentos para qualquer coisa.

Dora:

DORA
Eu sou psicóloga.

Pausa.

DORA
Confirmo.


CENA 32 — AS LOJAS

Saem do restaurante.

Passeiam pelas ruas estreitas de Dalt Vila.

As lojas continuam abertas.

Ana vê uma.

ANA
Só quero ver.

Os três homens param.

Olham uns para os outros.

Ricardo:

RICARDO
Não.

Dora:

DORA
Nós já vimos esta dinâmica.

Andreia:

ANDREIA
É a última noite!

As três entram.


André olha para Rui.

ANDRÉ
Bar?

Rui:

RUI
Bar.

Ricardo:

RICARDO
Bar.

E continuam a andar.


CENA 33 — O BAR NAS ESCADAS

Encontram um pequeno bar.

A esplanada ocupa uma escadaria do castelo.

Pufes.

Almofadas.

Copos.

Sentam-se.

Ricardo afunda-se num pufe.

RICARDO
Daqui não saio.

André:

ANDRÉ
Amanhã às—

Rui:

RUI
Não.

André:

ANDRÉ
Nem acabei.

Rui:

RUI
Não há corrida amanhã.

André:

ANDRÉ
Ia dizer pequeno-almoço.

Rui:

RUI
Também não quero falar.


Os três bebem.

Silêncio confortável.

Ricardo olha para as muralhas.

RICARDO
Foi uma boa viagem.

Rui:

RUI
Muito.

André:

ANDRÉ
Mesmo.

Outro silêncio.

Ricardo:

RICARDO
Para o ano?

André:

ANDRÉ
Não digas isso às mulheres.

Rui:

RUI
Porquê?

André:

ANDRÉ
Porque amanhã já temos grupo de WhatsApp.

Os três riem.


CENA 34 — ELAS VOLTAM

As mulheres aparecem.

Pequenos sacos.

Ana está exausta.

Rui olha.

RUI
Compraste?

Ana:

ANA
Uma coisinha.

Rui olha para Dora.

Também tem um saco.

Andreia.

Outro.

RUI
Três coisinhas.

Ana:

ANA
Não comeces.


Dora, curiosamente, continua cheia de energia.

DORA
E agora?

Ana deixa-se cair num pufe.

ANA
Agora hotel.

Dora:

DORA
Hotel?!

Ana olha para ela.

ANA
Sim.

Dora:

DORA
É a última noite!

Ana fica incrédula.

ANA
Tu?

Dora:

DORA
Sim.

Ana olha para Rui.

ANA
Leva-me para casa.


CENA 35 — O GRUPO DIVIDE-SE

Rui:

RUI
Eu vou com a Ana.

Dora:

DORA
Nós ainda vamos beber um copo.

Ricardo:

RICARDO
Vamos?

Dora olha para ele.

DORA
Vamos.

Ricardo:

RICARDO
Está bem.

Andreia:

ANDREIA
Nós também.

André:

ANDRÉ
Claro.


Ana:

ANA
Não cheguem às cinco.

Dora:

DORA
Claro que não.

Ricardo e Rui trocam um olhar.

Os dois sabem perfeitamente que aquela resposta não significa nada.


CENA 36 — RUI E ANA

INT. CARRO — NOITE

Rui conduz de regresso ao hotel.

Ana ao lado.

Silêncio confortável.

Ana encosta a cabeça.

ANA
Gostaste?

Rui:

RUI
Muito.

Ana:

ANA
Mesmo?

Rui olha rapidamente para ela.

RUI
Mesmo.

Ana sorri.

ANA
Também eu.

Pausa.

ANA
Mas estou morta.

Rui:

RUI
Também eu.

Ana:

ANA
E ainda foste correr esta manhã.

Rui:

RUI
Erro estratégico.

Ana abre os olhos.

ANA
Finalmente admites.


CENA 37 — OS OUTROS QUATRO

EXT. PLAYA D’EN BOSSA — MADRUGADA

Dora.

Ricardo.

André.

Andreia.

Último copo.

Encontram um BARMAN PORTUGUÊS.

BARMAN
Portugueses?

Dora:

DORA
Sim!

Começam a conversar.

Falam dos lugares por onde passaram.

Pikes.

Ushuaïa.

Bambuddha.

Benirràs.

Cala Comte.

Amante.

O barman sorri.

BARMAN
Então ainda vos falta muita coisa.

Os quatro ficam em silêncio.

Andreia:

ANDREIA
Não digas isso à Dora.

Dora aproxima-se do balcão.

DORA
O que é que falta?

O barman começa a enumerar outros lugares.

Dora ouve com atenção absoluta.

Ricardo olha para André.

RICARDO
Já fomos.

André:

ANDRÉ
Acabou.

Ricardo aponta discretamente para Dora.

RICARDO
Ela já está a planear.


Dora volta-se.

DORA
Para o ano.

Ricardo fecha os olhos.

CORTE PARA PRETO.


DIA 1 DE SETEMBRO

CENA 38 — ACORDAR DÓI

INT. HOTEL — 07H25

ALARME.

Rui abre os olhos.

Desta vez não há corrida.

Só sofrimento.

Ana:

ANA
Que horas são?

Rui:

RUI
Sete e vinte e cinco.

Ana:

ANA
Não.

Rui:

RUI
Sim.

Ana:

ANA
Porque é que marcámos um voo de manhã?

Rui:

RUI
Pergunta à Ana a Exploradora.

Ana:

ANA
Vou apagá-la.


CENA 39 — OS SEIS SOBREVIVENTES

INT. CORREDOR DO HOTEL

Aparecem um a um.

Malas.

Olhos pequenos.

Pouca conversa.

Ricardo surge particularmente destruído.

Rui olha.

RUI
Bebeste muito?

Ricardo:

RICARDO
Não.

Rui:

RUI
Então porque pareces ter saído de uma rave clandestina?

Ricardo:

RICARDO
Não sei.

Dora:

DORA
Está com uma espécie de ressaca sem álcool.

Ricardo:

RICARDO
Estou cansado.

Andreia:

ANDREIA
Isso chama-se idade.

Ricardo olha.

RICARDO
Obrigado.


CENA 40 — PEQUENO-ALMOÇO FECHADO

Chegam à sala.

Porta fechada.

Olham para a placa.

ABERTURA — 08H00

Relógio:

07H52.

Silêncio.

Ana:

ANA
Não.

André espreita através do vidro.

A zona das omeletes está vazia.

A expressão dele muda.

Andreia vê.

ANDREIA
Vais sobreviver.

André:

ANDRÉ
Não sei.


Ricardo encosta-se à parede.

Dora:

DORA
Queres café?

Ricardo:

RICARDO
Não.

DORA
Comer alguma coisa?

RICARDO
Não.

Rui fica preocupado.

RUI
Tu recusares comida já é grave.

Ricardo:

RICARDO
Quero ir para o aeroporto.


08H00.

A porta abre.

André olha para a zona das omeletes.

Depois para o relógio.

Grande dilema.

Andreia:

ANDREIA
Vai.

André:

ANDRÉ
Não temos tempo.

Andreia fica séria.

ANDREIA
Agora estou mesmo preocupada.


CENA 41 — PEQUENO-ALMOÇO EXPRESS

Café.

Pão.

Fruta.

Tudo rápido.

Ricardo praticamente não toca em nada.

Dora:

DORA
Come qualquer coisa.

Ricardo:

RICARDO
Não consigo.

Dora:

DORA
Uma banana.

Ricardo olha para ela.

Lembra-se do primeiro pequeno-almoço em Portinatx.

RICARDO
Outra vez não.


CENA 42 — CHECK-OUT

Receção.

Malas.

Cartões.

Conta.

Relógios.

Dora:

DORA
Temos de ir.

Ricardo:

RICARDO
Temos tempo.

Dora:

DORA
Não digas isso.


CENA 43 — GASOLINA

EXT. POSTO DE COMBUSTÍVEL

Última obrigação antes do aeroporto.

Abastecer os carros.

Rui num.

André no outro.

Ana olha para a hora.

ANA
Estamos bem?

Rui:

RUI
Estamos.

Ao longe, Dora ouve.

DORA
Não digam “estamos bem”!


André olha para a bomba.

ANDRÉ
Isto paga-se antes ou depois?

Rui:

RUI
André .

ANDRÉ 
Estou só a perguntar.

Rui:

RUI
Não temos tempo para questionar o sistema de abastecimento espanhol.



CENA 44 — RENT-A-CAR

Chegam.

Entregam os carros.

Um funcionário faz a inspeção.

Ricardo acompanha todos os movimentos.

O homem verifica o retrovisor.

Ricardo olha imediatamente para Rui.

RICARDO
Estás a ver?

Rui:

RUI
Não comeces.

O funcionário confirma que está tudo bem.

Ricardo:

RICARDO
Desta vez.


CENA 45 — AEROPORTO

Passos rápidos.

Malas.

Segurança.

Nada de lojas.

Nada de cafés.

Nada de tempo morto.

Chegam praticamente na altura de embarcar.

Ana:

ANA
Vamos entrar diretamente?

Rui:

RUI
Quase.

Dora olha para Ricardo.

DORA
Vês?

Ricardo:

RICARDO
O quê?

Dora:

DORA
Planeámos tudo.

Pausa.

DORA
E chegámos novamente em cima.

Ricardo sorri.

RICARDO
Mas chegámos.

Dora:

DORA
Essa não pode ser a lição desta viagem.


CENA 46 — O PASSAPORTE

Chegam à porta de embarque.

Ricardo apresenta o Cartão de Cidadão.

Passa.

Rui vem atrás.

RUI
E o passaporte?

Ricardo pára.

Olha para Rui.

RICARDO
Trouxe.

Rui:

RUI
Foi útil?

Ricardo pensa.

RICARDO
Não sabemos o que teria acontecido se eu não o tivesse trazido.

Rui fica a olhar para ele.

Ana:

ANA
Não.

Dora:

DORA
Não.

Andreia:

ANDREIA
Não.

André:

ANDRÉ
Não.

Ricardo entra no avião.

RICARDO
Vocês confiam demasiado no sistema.


CENA 47 — AVIÃO

INT. AVIÃO — MANHÃ

Descolam.

Viagem tranquila.

Sem turbulência.

Sem teorias.

Sem grandes conversas.

Porque todos…

DORMEM.

Ana encostada a Rui.

Dora encostada a Ricardo.

Andreia a dormir.

André também.

Ricardo de boca ligeiramente aberta.

Imagem típica de quem regressa de uma semana de festa, praia, restaurantes e noites demasiado longas.


Rui abre os olhos durante alguns segundos.

Olha para os outros.

Sorri.

Volta a fechar.


CENA 48 — MEMÓRIAS

Imagens rápidas da viagem.

O chip.

O passaporte.

O retrovisor partido.

A paella.

Ricardo pálido.

Cala Salada cheia de toalhas.

Os centímetros de distância entre desconhecidos.

A primeira entrada na água quente.

Benirràs.

O Bambuddha.

Os parabéns à Dora.

Pikes.

A banheira de bolas.

Freddies.

Sete pessoas a dançar Stromae numa estrada.

Ricardo dentro do carro a gritar:

“BELGA!”

El Bigotes:

“Next year.”

Calvin Harris no Ushuaïa.

O degrau que “mudou”.

“É isto o efeito?”

Catarina a apontar para o peixe errado.

Sérgio:

“Claro.”

A bosta junto ao carro.

Rui e André perdidos no corta-mato.

O chuletón.

As lojas de Santa Gertrudis.

Os homens no bar.

Cala Sol d’en Serra.

O rapaz de fio dental.

A meditação incompreensível para Rui.

A mesa redonda do Amante.

Os brindes.

Cala Llonga.

Dalt Vila.

O último jantar.


CENA 49 — LISBOA

INT. AEROPORTO DE LISBOA — CHEGADAS

As portas abrem.

Os seis surgem.

Malas.

Cara de cansaço.

Mas felizes.

Param antes de cada casal seguir o seu caminho.

Ninguém parece ter pressa de transformar aquele momento num simples “até logo”.

Andreia abraça Dora.

Ana também.

Os homens despedem-se.

Ricardo:

RICARDO
Então.

Ana:

ANA
Então.

Silêncio.

Dora:

DORA
Foi muito bom.

Andreia:

ANDREIA
Muito.

Rui:

RUI
Temos de repetir.

Ana olha para ele.

ANA
Tu disseste isso?

Rui:

RUI
Disse.

Ana:

ANA
Sem plano?

Rui pensa.

RUI
Não abuses.


CENA 50 — OS OITO OUTRA VEZ

O telemóvel de Dora vibra.

Grupo de WhatsApp.

CATARINA:

“Já chegaram?”

Logo depois:

SÉRGIO:

“Sobreviveram?”

Dora mostra aos restantes.

Todos riem.

Ricardo pega no telefone.

Escreve.

Dora:

DORA
O que estás a escrever?

Ricardo envia.

No grupo:

RICARDO:
“Sim. O sistema deixou.”

Rui fecha os olhos.


CENA 51 — AS DESPEDIDAS

Dora abraça Andreia.

Abraço demorado.

Depois Ana aproxima-se.

ANA
Posso?

Dora:

DORA
Claro.

Abraçam-se.

Ricardo observa.

RICARDO
As quatro meninas.

Rui:

RUI
Conceito de menina bastante—

Ana aponta para ele.

ANA
Não acabes essa frase.

Rui cala-se.


André olha para Rui.

ANDRÉ
Amanhã corro.

Andreia:

ANDREIA
Claro.

Rui:

RUI
A que horas?

Ana vira-se imediatamente.

ANA
Rui.

Rui:

RUI
Estou só a perguntar.

André:

ANDRÉ
Sete e meia?

Ana:

ANA
Vocês não aprenderam nada.


CENA FINAL

EXT. AEROPORTO DE LISBOA — DIA

Os três casais seguem em direções diferentes.

Rui e Ana caminham lado a lado.

Ana pega no telemóvel.

Rui olha.

RUI
Redes sociais?

Ana:

ANA
Agora posso.

Rui:

RUI
Acabaram as férias?

Ana pára.

Pensa.

Olha para ele.

ANA
Ainda não.

Guarda o telemóvel.

Continuam.


CORTE PARA:

Dora e Ricardo.

Ricardo procura qualquer coisa nos bolsos.

Dora:

DORA
Que foi?

Ricardo:

RICARDO
Nada.

Continua à procura.

Dora:

DORA
Ricardo.

Ele tira o PASSAPORTE.

Olha para ele.

Sorri.

RICARDO
Valeu a pena.

Dora:

DORA
Não foi utilizado uma única vez.

Ricardo:

RICARDO
Precisamente.

Dora fica a olhar.

Depois começa a rir.

Pega-lhe no braço.

Continuam.


CORTE PARA:

André e Andreia.

André:

ANDRÉ
Amanhã corro mesmo.

Andreia:

ANDREIA
Claro.


A imagem afasta-se.

Três casais.

Três direções.

Seis amigos no aeroporto.

Oito amigos no grupo.

Uma semana que começou com um chip, um passaporte desnecessário e um voo às 12h10.

E terminou com aquilo que provavelmente todos procuravam sem o terem colocado em nenhuma checklist:

tempo.

Tempo para conversar.

Tempo para rir.

Tempo para observar o absurdo.

Tempo para contar histórias que não se contam em jantares de duas horas.

Tempo para perceber que aos cinquenta — ou lá perto — ainda se pode dançar no meio de uma estrada às três da manhã, mergulhar em águas demasiado quentes, perder-se em falésias, experimentar coisas novas, cantar parabéns, discutir menus, falar de filhos, sexo, confiança, trabalho, omeletes e Sporting.

E, sobretudo, tempo para reforçar amizades.

CORTE PARA PRETO.

FIN DE VERANO A 8

FIM DA TEMPORADA


CENA PÓS-CRÉDITOS

GRUPO DE WHATSAPP — 14H37

Nome do grupo:

FIN DE VERANO A 8

Mensagem de ANA:

“Pessoal… encontrei uma coisa para o próximo ano.”

Três pontinhos.

DORA está a escrever.

ANDREIA está a escrever.

CATARINA está a escrever.

RUI está a escrever.

Ana envia um link.

Segundos depois:

RICARDO:
“Antes de decidirmos convém perceber algumas coisas.”

SÉRGIO:
“Não.”

ANDRÉ:
“Dá para correr?”

Silêncio.

Depois:

CATARINA:
“Eu para o ano não volto mais cedo.”

Corações.

Risos.

Última mensagem:

DORA:
“Quando começamos a planear?”

CORTE PARA PRETO.

PARA A PRÓXIMA.


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