O Chip

 FIN DE VERANO A 8

Episódio 1 — “O Chip”

COLD OPEN

INT. CASA DE DORA E RICARDO — LISBOA — 26 DE AGOSTO — 08H35

Sala arrumada.

Malas fechadas.

Documentos alinhados em cima de uma mesa.

Uma pequena bolsa com medicamentos, carregadores, óculos de sol e papéis impressos.

DORA anda de um lado para o outro com o telemóvel na mão.

Tem uma checklist.

DORA
Cartões de cidadão.

Confere.

DORA
Carregadores.

Confere.

DORA
Reservas.

Confere.

DORA
Protetores solares.

Confere.

RICARDO entra vindo do quarto.

Calções.

T-shirt de uma banda dos anos 80.

Traz o Cartão de Cidadão na mão.

Olha para ele.

Vira-o.

Volta a virar.

RICARDO
Dora.

Ela nem levanta os olhos.

DORA
Não.

RICARDO
Ainda nem disse nada.

DORA
Mas conheço esse “Dora”.

Ricardo olha novamente para o cartão.

RICARDO
O chip.

Dora para.

Olha para ele.

DORA
O quê?

RICARDO
O chip do Cartão de Cidadão.

DORA
O que é que tem?

RICARDO
Nada.

Pausa.

RICARDO
E isso é que é estranho.

Dora respira fundo.

DORA
Ricardo, são oito e trinta e cinco.

RICARDO
Eu sei.

DORA
O avião sai às doze e dez.

RICARDO
Também sei.

DORA
Então não vamos começar uma investigação ao Cartão de Cidadão.

Ricardo aproxima-se.

RICARDO
Pensa comigo.

DORA
Não quero.

RICARDO
Tem um chip.

DORA
Tem.

RICARDO
Mas ninguém lê o chip.

DORA
Ricardo…

RICARDO
Então para que serve?

Dora fica a olhar para ele.

DORA
Para tu teres alguma coisa com que implicar antes das férias.

Ricardo sorri.

RICARDO
Isso é uma hipótese.

Dora pega numa mala.

DORA
Vamos.

Ricardo não se mexe.

DORA
Ricardo.

RICARDO
Estou a pensar numa coisa.

Dora larga a mala.

DORA
Eu sou paz e amor.

Ricardo olha para ela.

DORA
Mas tenho limites.


INT. QUARTO — MOMENTOS DEPOIS

Ricardo anda à procura de qualquer coisa.

Dora aparece à porta.

DORA
O que estás a fazer?

RICARDO
Nada.

DORA
Ricardo.

RICARDO
A mochila.

DORA
Está na sala.

RICARDO
A outra mochila.

Dora fecha os olhos.

DORA
Porque é que precisas da outra mochila?

RICARDO
A primeira não distribui bem o peso.

DORA
Vamos estar sentados num avião.

RICARDO
E no aeroporto.

DORA
Vai com essa.

RICARDO
Mas esta tem melhor apoio lombar.

Dora olha para o relógio.

08H48.

DORA
Nós planeámos sair às oito e meia.

RICARDO
Ainda estamos perto.

DORA
Não estamos perto de nada.


INT. SALA — 08H57

Dora está pronta.

De pé.

Mala na mão.

Ricardo aparece finalmente.

RICARDO
Pronto.

DORA
Vamos.

Dão três passos.

Ricardo para.

RICARDO
Espera.

Dora não se vira.

DORA
Não.

RICARDO
Os passaportes.

Dora vira-se lentamente.

DORA
Não precisamos.

RICARDO
Eu sei.

DORA
Então?

RICARDO
Mas temos.

DORA
Temos muitas coisas de que não precisamos.

RICARDO
Mas estas podem ser úteis.

DORA
Vamos para Espanha.

RICARDO
Hoje.

Dora olha para ele.

DORA
Como assim, “hoje”?

Ricardo pega na mala.

RICARDO
Nada. Vamos.


EXT. PRÉDIO / CARRO — 09H05

Finalmente saem.

Dora entra no carro.

Ricardo coloca as malas.

Entra.

Arranca.

Dora olha para o GPS.

DORA
Se não houver trânsito chegamos bem.

RICARDO
Claro.

DORA
Mas já podíamos estar lá.

RICARDO
Não vale a pena chegar demasiado cedo.

DORA
Vale.

RICARDO
Para ti.

DORA
Para qualquer pessoa normal.

Ricardo olha para ela.

RICARDO
Esse conceito de normalidade é muito discutível.

DORA
Sou psicóloga.

RICARDO
Exatamente.


INT. CARRO — 09H17

Trânsito fluido.

Dora começa finalmente a relaxar.

Olha pela janela.

DORA
Pronto.

Pausa.

DORA
Agora sim.

Ricardo conduz.

Cinco segundos de silêncio.

RICARDO
Dora…

Ela fecha os olhos.

DORA
Não.

RICARDO
É só uma coisa.

DORA
Não.

RICARDO
Eu acho que devíamos levar os passaportes.

Dora vira a cabeça.

DORA
Ricardo.

RICARDO
É só uma segurança.

DORA
Não precisamos.

RICARDO
É a informação oficial.

DORA
Que outra informação tens?

RICARDO
Nenhuma.

DORA
Ótimo.

RICARDO
Mas é precisamente isso.

Dora olha para ele.

DORA
Precisamente o quê?

RICARDO
Quando toda a gente diz a mesma coisa…

Dora interrompe.

DORA
Não.

RICARDO
…convém desconfiar.

DORA
Não vais transformar a entrada em Ibiza numa teoria de conspiração.

RICARDO
Não estou a dizer que há uma conspiração.

Pausa.

RICARDO
Só estou a dizer que não sabemos se há.

Dora volta a olhar em frente.

DORA
Continua para o aeroporto.

Ricardo acena.

Silêncio.

Liga o pisca.

Dora olha.

DORA
Porque é que estás a dar pisca?

RICARDO
Vou sair aqui.

DORA
Porquê?

RICARDO
Vamos buscar os passaportes.

Dora fica incrédula.

DORA
RICARDO!

O carro sai da via.

RICARDO
Dez minutos.

DORA
Não são dez minutos!

RICARDO
Doze.

DORA
Nós estamos a voltar para casa!

RICARDO
Sim.

DORA
Depois de eu ter planeado tudo!

RICARDO
É uma pequena alteração ao plano.

DORA
É o contrário de um plano!

Ricardo mantém-se estranhamente feliz.

RICARDO
Mas pensa no lado positivo.

DORA
Não há lado positivo!

RICARDO
Se não precisarmos dos passaportes, voltamos a casa com eles.

Dora olha para ele, derrotada.

DORA
Paz e amor.

Pausa.

DORA
Paz e amor.

CORTE PARA PRETO.

FIN DE VERANO A 8


CENA 2 — CASA DE RUI E ANA — MAIS TARDE

Rui fecha a mala.

Ana está radiante.

Óculos de sol.

Modo férias.

ANA
Vamos?

RUI
Vamos.

Moram perto do aeroporto e não têm grande stress.

Ana guarda o telemóvel.

ANA
E acabou.

RUI
O quê?

ANA
Redes sociais.

RUI
Já?

ANA
Estou de férias.

RUI
Ainda estamos em casa.

ANA
Nas férias desligo completamente.

Rui abre a porta.

RUI
Vamos ver quanto dura.

ANA
Completamente.


CENA 3 — AEROPORTO DE LISBOA

Rui e Ana são os primeiros dos seis a chegar.

Pouco depois chegam André e Andreia.

Abraços.

Andreia traz mala para despachar.

RUI
Vocês têm mala de porão?

ANDREIA
Temos.

André olha para a fila do check-in.

ANDRÉ
Está tranquilo.

Rui olha para a fila.

RUI
Nunca digas isso num aeroporto.

Andreia ri.

ANDREIA
Vão andando. Encontramo-nos na porta.

ANDRÉ
Temos tempo.

Calmo como sempre.


CENA 4 — PORTA DE EMBARQUE

Rui e Ana já passaram a segurança.

Estão junto à porta.

Ana está feliz.

Rui olha para o telemóvel.

RUI
Os outros ainda não apareceram.

De repente Ana vê alguém.

ANA
Olha.

Dora e Ricardo vêm pelo corredor.

Rui levanta as sobrancelhas.

RUI
Vocês chegaram?

Ricardo sorri como se tivesse acabado de provar uma tese científica.

RICARDO
Planeamento.

Dora olha para ele.

DORA
Não.

RUI
Vocês não tinham voltado para trás?

Dora fica em silêncio.

Ricardo dá uma palmada no bolso.

RICARDO
Passaportes.

Rui sorri.

RUI
Claro.

ANA
Não perguntes.

RUI
Não disse nada.

ANA
Conheço-te.

Rui olha para Ricardo.

RUI
Mas precisaram deles?

Ricardo aponta para a porta de embarque.

RICARDO
Ainda estamos em Portugal.

Ana olha para Dora.

ANA
Perdemos os dois.

Dora suspira.


Pouco depois começa o embarque.

Dora olha para trás.

DORA
E o André e a Andreia?

Rui aponta para o corredor.

RUI
Ainda devem estar a tratar da mala.

Ricardo olha para Dora.

Sorri.

RICARDO
Estás a ver?

DORA
Não.

RICARDO
Chegámos depois deles e estamos aqui primeiro.

DORA
Ricardo, nós voltámos a casa.

RICARDO
Mas estamos aqui.

RUI
É um caso interessante.

Ana vira-se imediatamente.

ANA
Não.

RUI
O quê?

ANA
Não transformes isto numa teoria de gestão.

RUI
Eu só ia dizer que planeamento sem execução—

ANA
Rui.

RUI
Está bem.

Ricardo aproxima-se.

RICARDO
Mas ele tem razão.

Dora olha para Ana.

DORA
Agora perdemos mesmo os dois.


Ao fundo aparecem finalmente André e Andreia.

Andreia anda depressa.

André vem tranquilo atrás.

ANDREIA
Odeio malas de porão.

ANDRÉ
Correu bem.

Rui olha para eles.

RUI
Vocês chegaram ao aeroporto depois de nós, antes deles…

Aponta para Ricardo e Dora.

RUI
…e chegaram à porta depois deles.

André encolhe os ombros.

ANDRÉ
Acontece.

Ricardo abre os braços.

RICARDO
Organização.

Dora olha para ele.

DORA
Não tens autorização para utilizar essa palavra hoje.

CORTE PARA:

PORTA DO AVIÃO

Ricardo apresenta o Cartão de Cidadão.

Passa.

Dá dois passos.

Para.

Olha para Dora.

RICARDO
Não leram o chip.

Dora empurra-o para dentro.

DORA
Entra no avião, Ricardo.


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